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.....O Patrimônio Científico do IBGEO

Prof. Geraldo Carlos Pereira Pinto


............O Distrito de Recursos Naturais e Meio Ambiente da Bahia, DRN/BA, da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, possui um Herbário onde estão representadas dezenas de milhares de plantas da nossa flora.

            Herbário é uma coleção racional de plantas tecnicamente preparadas e cientificamente estudadas nos aspectos taxonômico, ecológico, fitogeográfico e econômico, se constituindo um documentário sôbre cada espécie, isoladamente, e sôbre todas, em conjunto. Pode representar a flora de uma área, região, país, ou do globo terrestre. É uma forma de museu científico que reflete o grau de civilização de cada povo e seu interêsse pelos bens da natureza, haja vista que na Europa existem Herbários iniciados há séculos, sempre bem cuidados e ampliados para que hoje abriguem milhões de amostras de plantas das mais variadas procedências.

            Foi no ano de 1980 que os dirigentes do extinto Projeto RADAMBRASIL, atualmente incorporado ao IBGE, tornaram realidade o desejo e necessidade que sua Divisão de Vegetação dispusesse de um documentário florístico representativo do nosso diversifi- cado e opulento reino vegetal. Procediam-se os estudos e levantamento de dados para o mapeamento dos recursos naturais com a interpretação precípua das imagens de Radar e de Satélite. Aprioristicamente, era possível definir-se o ecossistema dominante ou a interação de ecossistemas, e as equipes técnicas passavam a dispor de informações preliminares para os estudos que deveriam suceder-se. A refletância exibida nas imagens era comparada a padrões pré-estabelecidos e as dúvidas suscitadas seriam esclarecidas ao fazer-se os sobrevôos, ou nos caminhamentos, quando se deveria chegar à certeza. Especialistas em Geologia, Pedologia, Climatologia, Geomorfologia, Vegetação, Agronomia e Poten cial Hídrico, investigaram de per-si e integradamente tudo quanto pudesse oferecer informações.

            A cobertura vegetal sempre foi uma revelação, porque ela é resultante da interação dos fatores ditos climáticos, edáficos e biológicos; também é a mais sujeita às alterações pelas interferências estranhas, provocadas ou não pelo homem. Daí a preocupação de documentar-se. O que recobre cada área? O que predomina em cada região? Floresta, cerrado, caatinga, campo, manguezal? estará no estágio das sucessões ou já atingiu o equi líbrio do climax?

            A pesquisa prosseguia, mas faltava um documentário comprobatório do que fora observado, capaz de proporcionar, "a posteriori", informações mais minuciosas sôbre outros ângulos do que constituia a cobertura vegetal observada e estudada. O porte, a densidade, o grau de heterogeneidade, as dominantes, as emergentes, os estratos, o potencial econômico; a composição florística e o arranjo fitossociológico forarn registrados e incluídos nos relatórios; mas a prova insofismável de tudo fica no Museu de Botânica que no mundo se convencionou chamar de Herbário.

            A florística, desde os primórdios desse gigantesco trabalho de levantamento dos recursos naturais por Folhas ao milionésimo, foi uma preocupação. As instituições de pesquisas da Amazônia, do Nordeste, do Rio de Janeiro, e de todos os rincões do Brasil, vislumbraram a oportunidade de beneficiar-se; pediram doações das coletas, mandaram seus emissários para agregar-se às operações e obter amostras de valor científico das espécies vegetais que compunham cada fisionomia e suas respectivas comunidades; enriqueceram muito suas coleções; contribuíram com as identificações taxonômicas e até enviaram amostras de espécies sobre as quais pairavam dúvidas a especialistas, para seus devidos pronunciamentos.

            Tanto mais progrediam os estudos integrados, a confecção dos mapas, a publicação dos relatórios e neles a descrição da flora, dos ecossistemas, das espécies relevantes como madeireiras, medicinais, alimentares e de toda uma gama de usos dos seus produtos, mais aumentava a lacuna da falta do documento comprobatório de sua existência, no caso a exsicata representativa da espécie referida como ocorrente na região estudada.

            Falta-lhes um Herbário! diziam os cientistas e os profissionais da área da Biologia. Como vocês vão ter provas, como vão fazer estudos retrospectivos, como vão buscar informações complementares, sob outros ângulos que os agora investigados, se lhes falta o suporte básico? é no Herbário que os ecólogos, os taxonomistas, os anatomistas, os fitossociólogos e fitogeógrafos, os tecnologistas de madeira e de outros produtos de interêsse industrial, medicinal e econômico, sob qualquer aspecto, vão buscar informações, conhecer a planta, ler a ficha, ver sua dispersão, suas preferências ecológicas e associações, sua freqüência, nomes populares e usos. Porque o Herbário é a concentração ordenada, técnica e cientificamente estudada sob os mais diversos ângulos da Botânica e Fitotecnia, de cada planta isoladamente, e de todas em conjunto, que compõem a vegetação de uma área, região, país, ou do mundo.

            Criou-se, oficialmente, o Herbário RADAMBRASIL.

            Toda a equipe da Divisão de Vegetação foi acionada e mobilizada para colaborar com o seu processo de organização e crescimento. Fez-se um apelo para que, em todas as oportunidades qualquer planta fértil, fosse erva, cipó ou árvore, desde que provida de flores e/ou frutos, além de suas partes vegetativas, fosse colhida, preparada e incorporada ao Herbário. Divulgou-se uma metodologia de coleta de material botânico que é uma seqüência de operações simples mas importantes.

            Estabelecia-se uma filosofia e delineou-se uma sistemática de trabalho responsável pelo aprimoramento e padronização do produto final. Em Biologia a diversificação é uma constante, mas as linhas mestras de atuação estavam previstas. Os dados complementares referentes à própria planta, ao ambiente, à associação, à geografia, nomes populares, usos e o mais que se constitui informação, deveriam ser registrados na caderneta de campo, vinculados ao número da coleta.

            Progressivamente, entrosavam-se as etapas de atividades. Técnicos e auxiliares de campo, no decorrer das operações coletavam, preparavam para envio à sede e registravam os dados complementares no tocante à planta, ao ambiente e ao homem; a etnobotânica se incluiu nas preocupações dos itinerantes; tornou-se necessário assinalar na carta geográfica o ponto de coleta para associar-se a exsicata às coordenadas, assim como registrar-se o padrão eco-ambiental e fitossociológico de cada número.

            Na sede, era o processamento operacional de rotina conforme o fluxograma que sequencia e racionaliza as atividades, até a incorporação de amostras representativas ao Herbário e destinação das duplicatas aos especialistas e às instituições congêneres.

            Neste ritmo, em sete anos, centenas de milhares de amostras foram coletadas e hoje representam espécies da flora brasileira no Herbário RADAMBRASIL e seus congêneres nas instituições de ensino e pesquisas nacionais e estrangeiras com as quais foi estabelecido e tem sido mantido intercâmbio científico. Muitas descobertas já foram feitas e muitas espécies raras ou ameaçadas de extermínio estão representadas nas coleções herborizadas.

            O IBGE assumiu e está cumprindo relevante papel na formação e preservação de um patrimônio científico que se constituirá memória de inolvidável valor quando a degradação de nosso potencial florístico houver alcançado níveis mais críticos, pela atuação vandálica do homem .

 

Escrito em fevereiro de 1988, a pedido do Dr. Luiz Góes Filho – Chefe do DERNA – IBGE, Rio, para pub1icação numa revista do Órgão.

 

 

Organizador José Henrique Vilas Boas - Webmaster Fabio Correia